15 de fevereiro de 2019

AM - PICO DA NEBLINA (YARIPO)

Nos braços do vento

Texto: Geraldo "Tite" Simões
Imagens: Beto "Gol", Myka Will, Branco "Shock", Hamyla, Montoya

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Dois amigos montanhistas e pilotos de parapente realizam dois feitos inéditos no Pico da Neblina.


Pensar em uma aventura inédita no século 21 é um desafio. Quase tudo que pode desafiar os limites já foi realizado. Mas sempre tem alguém buscando ser pioneiro em algo grandioso e foi isso que moveu os paulistas Leandro “Montoya” Estevam e Myka Will, experientes montanhistas e pilotos de parapente. Em janeiro deste ano eles se tornaram os primeiros a voar de parapente do ponto mais alto do Brasil e também de montar o slackline mais alto do País. Para conseguir esse feito eles primeiro tiveram de enfrentar o maior de todos os desafios: a autorização!

O Parque Nacional do Pico da Neblina, que abriga 13 povos indígenas e a montanha mais alta do Brasil, em plena floresta amazônica, está fechado para visitação de turistas desde 2002, em função de conflitos com garimpeiros de ouro. Uma tristeza para os montanhistas brasileiros e estrangeiros que sonhavam em escalar o Pico da Neblina, com 2.994m de altitude. Eram permitidas apenas expedições militares e científicas.

Para conseguir realizar esse desafio foram necessários seis meses de preparação, além de autorizações especiais. Tudo começou com o engajamento dos índios Yanomamis, que criaram um programa batizado de Yaripo – Ecoturismo Yanomami. Yaripo é o nome dado ao Pico da Neblina pelo povo local e significa Montanha do Vento.

– Nossa aventura serviu como uma espécie de balão de ensaio para a reabertura do Pico da Neblina ao turismo ainda em 2019 – explicou Leandro Montoya, 38 anos, gerente de negócios durante a semana, escalador e piloto de parapente nos fins de semana. Segundo ele, o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio) apresentou à Funai o Plano de Visitação Yaripo que espera trazer vantagens sociais, ambientais e econômicas à região.

Os verdadeiros protagonistas do projeto Yaripo, são os Yanomami, que começaram essa iniciativa há mais de sete anos e prevê expedições formadas e guiadas pelos eles, gerando renda e visibilidade para a etnia. Os Yanomami conseguiram apoio da AYRCA (Associação Yanomami do Rio Cauaburis), ICMBio, FUNAI (Fundação Nacional do Índio), ISA (Instituto Sócio Ambiental) e outras entidades. Receberam formação em ecoturismo e estão prontos para atender os visitantes. De acordo com o guia Beto Góes Yanomami, o “Gol”, “o projeto Yaripo pretende valorizar nossa cultura e proteger o meio ambiente de forma sustentável e inteligente”.

Barco, 4X4, caminhada...

Plato a aproximadamanente 2.000m de altitude, ao fundo o Pico da Neblina (Yaripo)

O Pico da Neblina está bem perto da fronteira com a Venezuela, na Serra do Imeri, no seio da Floresta Amazônica, um pouco acima da linha do Equador no Estado do Amazonas. A Serra do Imeri é um grande maciço formado por um platô central cercado por uma coroa de picos mais altos. O Pico da Neblina com 2.994m e o Pico 31 de Março, são os mais altos da serra.

Como parte do projeto de exploração sustentável, os Yanomami vêm realizando expedições experimentais do projeto Yaripo e melhorando a infraestrutura para visitação. Por exemplo, conseguiram autorização para a instalação de degraus de apoio nos pontos mais verticais da escalada, já próximo ao cume e a instalação de uma antena de rádio que permite a comunicação com a comunidade de Maturacá.

A expedição experimental MYKA foi realizada em janeiro de 2019, seguiu as especificações do projeto Yaripo, no que diz respeito a infraestrutura e roteiro, e serviu de experiência e inspiração para futuros aventureiros que visitarem o parque após a abertura.

Mais do que simplesmente escalar até o cume,  essa expedição culminou com a primeira decolagem de parapente e linha de slackline na montanha mais alta do Brasil, porém estas atividades foram realizadas em caráter de experiência e ainda não fazem parte do projeto original.

Para alcançar o objetivo foi formada uma equipe com sete membros: os paulistas Myka e Montoya, montanhistas e pilotos de parapente. Três Yanomami: o guia Beto “Gol” e os portadores Francisco e Amâncio; e dois moradores de São Gabriel da Cachoeira: Branco “Shock”, o cozinheiro e responsável pela logística e Hamyla, enfermeira das comunidades indígenas, de etnia Baré.



Essa expedição ao Pico da Neblina, ou Yaripo, nos moldes do projeto, seguiu um roteiro programado para dez dias, com o seguinte cronograma:

Dia1 – De São Gabriel da Cachoeira (AM) para Aldeia de Maturacá, em veículos 4x4 e lanchas “voadeiras”.
Dia2 – De Maturacá até Foz do Tucano, em lanchas voadeiras. Ponto onde atraca o barco e inicia a caminhada.
Dias 3, 4 e 5 – Caminhada na mata amazônica, partindo de 100m para 2.000m, chegando ao acampamento base no platô do Pico da Neblina.
Dia 6 – Ataque ao Cume e retorno ao acampamento base.
Dia 7, 8 e 9 – Caminhada de volta a Foz do Tucano para pegar a “voadeira” e chegar em Maturacá
Dia 10 – Retorno de Maturacá para São Gabriel da Cachoeira.

Como essa primeira expedição experimental previa o encerramento em grande estilo, com o voo de parapente, a Expedição Myka foi um pouco diferente, com duas noites no cume para aumentar as chances de encontrar tempo bom para o voo.

Sobe, sobe e sobe mais

Caminhada até o cume do Pico da Neblina
Esqueça os acampamentos “domesticados”. Na Amazônia toda a estrutura é mais roots e pensada em proteger da chuva, mosquitos e várias espécies peçonhentas. São usadas estacas de madeira, nas quais se armam redes e uma jirau para isolar da umidade. Para completar é estendida uma lona que funciona como telhado de duas águas por cima das redes. Fica parecendo algo como uma casa sem paredes. Quase todos os acampamentos têm espaço suficiente para armar barracas, caso o turista não seja adepto das redes.

A caminhada até a base do Pico da Neblina leva de seis a oito horas por dia para cumprir entre 11km e 13km, dentro de ambiente bastante úmido e quente, até com relativamente poucos insetos. O chão é escorregadio, composto por folhas acumuladas por cima de raízes e quase não se vê o sol por conta das grandes árvores. Nesta jornada esperava-se muita chuva, mas ela apareceu mais à noite, deixando as caminhadas um pouco mais secas e menos cansativas.

Para repor as energias, a alimentação ficou toda a cargo do cozinheiro Branco “Shock” e contou com feijão, arroz, charque, linguiça e, não podia falta, farinha, tudo acompanhado de refresco. Como norma de segurança e evitar incêndios acidentais, são usados fogareiros ou mesmo fogueira, mas sempre com orientação dos guias. Já a higiene é feita nos igarapés, as vezes em pocinhos maiores, na base do banho de caneca.

Acampamento Base do Pico da Neblina
O cenário muda bastante quando se chega ao platô: a temperatura cai muito, as árvores ficam bem menores, caminha-se sobre pedras e lama funda e mole com muitas bromélias. Diferentemente dos campos de altitude da Serra da Mantiqueira, o platô tem muita umidade proveniente da floresta amazônica e conta com palmeiras e árvores.



Essa caminhada termina no acampamento base no platô, já a aproximadamente 2.100m de altitude, a oeste do Pico da Neblina, bem perto da rota de ataque final ao cume. Neste acampamento base não tem espaço para barracas, apenas para redes, e foi posicionado para que os turistas possam sair dali, atacar o cume sem peso e voltar no mesmo dia. Um dos lemas dos montanhistas é: tempo é segurança. É importante estar leve e rápido.

O ataque ao cume é uma longa jornada partindo dos 2.100m até os 2.994m, que dura de três a cinco horas (dependendo do peso), passando por campos de bromélia, charcos e trechos de “escalaminhada”. Montanhistas da região sudeste instalaram degraus nos pontos de maior exposição onde antes haviam cordas, criando uma via ferrata para mais segurança dos visitantes.

Cume do Pico da Neblina (Yaripo)

Importante saber que o cume comporta apenas duas a quatro barracas, mas é relativamente amplo e abaulado, de modo que o visitante não se sente exposição. A leste do cume está a floresta amazônica e a oeste o platô; a face leste é bastante vertical, com um desnível assustador já que a floresta está 2.894 metros abaixo do cume!

Enroscado na decolagem 


O ponto alto – literalmente – ainda estava para realizar: a primeira decolagem de parapente da história do Pico da Neblina. Para conseguir era preciso encontrar uma condição rara de ventos e visibilidade. O nome do pico não é à toa. Boa parte do tempo ele está encoberto e castigado por ventos fortes. Para encontrar as condições ideais era preciso acordar bem cedo e ser rápido com a operação. Tudo deu quase certo, mas...

A noite que antecedeu o voo foi muito fria e com bastante vento. Na busca por um pouco de conforto Montoya usou seu parapente sobre o saco de dormir para se aquecer dentro da barraca e, sem perceber, embaraçou muito as linhas. Era tudo que não precisava acontecer.

Na manhã seguinte as condições estavam perfeitas para o voo livre: vento fraco, poucas nuvens e a decolagem precisava ser feita o mais rápido possível antes que as nuvens voltassem a cobrir o cume ou o vento ficasse mais forte, o que pode acontecer em poucos minutos. Mas desembaraçar as linhas do parapente levaria tempo, especialmente no cume da montanha com pouco espaço, vento e vegetação enroscando em tudo.

Em um grande ato de altruísmo Myka ofereceu seu próprio parapente para o Montoya ali mesmo, sob a bandeira mais alta do Brasil, abrindo mão de um voo histórico. Montoya aceitou o equipamento do parceiro. Minutos depois o cume foi tomado pelas nuvens.

Voando de parapente sobre a floresta amazonica

No dia 9 de janeiro de 2019, às 6h40, Leandro Montoya decolou de parapente a partir da face leste, direto sobre o vazio acima floresta amazônica, para realizar um voo de aproximadamente 15 minutos, contornando a montanha pelo sul e pousando no platô, a oeste do cume, próximo ao acampamento base. Esta rota foi escolhida porque não há clareiras para pouso na floresta amazônica.

O pouso foi sobre um campo de bromélias, próximo a Bacia do Gelo, a 2.000m de altitude. Assim que tocou no solo, o piloto Leandro “Montoya” foi recebido com festa pelos portadores Yanomami que ficaram no acampamento base.

Depois do grande gesto de amizade ao ceder o parapente, Myka montou a mais alta linha de slackline nas pedras do cume, batendo o recorde dessa modalidade. Foi montada laçando as rochas do cume, sem instalação de base ou qualquer intervenção artificial.

Myka Sam fez montoy a mandou a linha de slackline mais alta do Brasil, no Pico da Neblina

Após muita comemoração pelos dois feitos, a expedição retornou sem surpresas a São Gabriel da Cachoeira, passando pela aldeia de Maturacá.

Segundo Leandro Montoya, “uma viagem ao Yaripo é muito mais que subir a montanha: é passar alguns dias na floresta amazônica, lado a lado com os legítimos donos daquela terra, uma vivência real com a cultura Yanomami, temperado com uma pitada de escalaminhada em rocha no dia de ataque ao cume”. E completa:  “a maior montanha de nosso País está no seio da maior floresta do mundo e muito bem guardada no coração dos homens e mulheres que vivem ali há séculos”.


A partir dessa experiência os interessados em visitar, explorar e conhecer o plano de visitação ao Yaripo, esse importante ponto turístico do Brasil, pode fazer as reservas por meio do site da ICMBio (www.icmbio.gov.br), que também indica os valores. De acordo com os pioneiros dessa aventura, uma viagem desse porte ficaria em torno de R$ 5.000 a R$8.000 por pessoa, sem a passagem aérea até Manaus.

FILMES:

PICO DA NEBLINA 2019 (5min.)




MOHOMIRIWE (16min.)



8 de fevereiro de 2019

Ninho das Águias - RS


Texto e Imagens: Mauro Chies

A rampa




O “Ninho" como é conhecido pelos pilotos locais é a rampa de vôo livre mais charmosa do RS. Fica na Cidade de Nova Petrópolis, na serra gaúcha, distante apenas 37Km da cidade de Caxias do Sul (centro econômico da serra gaúcha), 42Km de Gramado e 95Km de Porto Alegre, capital do estado.
A rampa Norte/Noroeste tem acesso fácil por estrada parcialmente asfaltada e recebe um grande número de visitantes nos finais de semana, em busca do lindo visual e do por de sol incomparável. Sua altitude é de cerca de 700m e tem um desnível de 650m em relação ao pouso oficial do Clube Ninho das Águias de Vôo Livre (https://www.facebook.com/Clubeninhodasaguias/).

S 29°217.30" W 051° 952.86"


A trilha

         Saindo do pouso oficial em direção da Linha Temerária, anda-se por cerca de 3Km por estrada pavimentada até chegar ao início da trilha propriamente dita. Daí para frente são mais 5Km de estradinhas de interior dando a volta na montanha, subindo 650m de desnível, até chegar no estacionamento e na rampa propriamente dita. A estrada não é utilizada por automóveis, apenas bicicletas e eventualmente veículos rurais, tornando a caminhada muito tranquila e prazeirosa.
Há trilhas mais fechadas que levam menos do que as cerca de duas horas de caminhada, porém são mais fechadas e difíceis de seguir sem um guia local. Recomendo a estrada padrão (Linha Temerária).



A decolagem


     A rampa norte do Ninho é muito amigável. Há uma enorme área gramada para checagem do equipamento e uma rampa igualmente gramada, além de contar com uma rampa de concreto muito utilizada pelas asas delta. Há bar e banheiros disponíveis no local.

O voo 
  
  Os vôos na serra gaúcha são um pouco diferentes daqueles das regiões mais conhecidas do país. Não há uma constância tão grande da climatologia (o microclima influencia muito as condições nesta região). Em geral nos meses de outono, inverno e primavera temos as condições ideais para "cross country”", levando em consideração o relevo altamente irregular e a proximidade de grandes cidades com rotas de aviação comercial que devem ser observadas. A térmicas são pequenas e fortes, com descendentes igualmente fortes. Do Ninho voa-se grandes distâncias, para os padrões do Ninho. É uma rampa de montanha exigente que oferece um visual lindo e resgates fáceis devido à boa malha viária.

O Pouso

     O pouso oficial é grande e localiza-se logo abaixo da rampa, dentro de um vale onde geralmente o vento é mais forte. Recomenda-se visitar o pouso antes de ir para a rampa. Conta com estacionamento, banheiros e bar. e é o local de encontro natural dos pilotos de asa e parapente depois de uma tarde de vôo. Há outros inúmeros locais de pouso na área rural que circunda a rampa, ou em caso de emergência, no gramado do estádio municipal da Cidade de Nova Petrópolis.




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